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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Preservação das obras de arte francesas em ferro.


Chafariz Monumental do Monroe.

O entusiasmo do Imperador D Pedro II, pelas artes e tecnologia, com certeza, foi à  motivação para a ida de uma delegação a Exposição de Viena em 1873.  O Chafariz Monumental do Monroe foi o primeiro a ser oficialmente adquirido, e escolhido pessoalmente pelo Imperador na Europa. Contudo  só há registros referentes à sua instalação no Largo do Paço, em 1878.  A inauguração pôs fim ao tratamento urbanístico iniciado em 1872, junto à sede do império.


Após a Proclamação da República sérias questões na área de saúde pública e a busca de uma nova feição para a capital provocaram grandes intervenções que alteraram o perfil urbano da cidade. O auge delas ocorreu no Governo do Presidente Wilson (1902-1906) tendo à frente o Prefeito Pereira Passos, responsável por um verdadeiro “bota-abaixo” que demoliu dezenas residências, dando lugar a novos espaços e avenidas, como a Praça XV. 

Com parte do viaduto da Avenida Perimetral, que corta a Praça XV, inaugurado em 1960, discussões quanto à natureza urbanística e estética avaliam que a permanência do chafariz do Monroe em meio a outros monumentos – Chafariz colonial de Mestre Valentim, a Estátua de D. João VI e do General Osório – não é adequada., direcionou  a sua transferência  para a Praça da Bandeira, ação concretizada em 1962.                                                                                                                                          
                                                                               
A partir de 1975, a Cidade do Rio de Janeiro vive nova transformação urbana com a construção do Metrô. Ruas, avenidas, praças são interditadas e muitas edificações demolidas. A de maior repercussão foi à derrubada do Palácio do Monroe,  prédio do Senado Brasileiro. Para preencher o vazio deixado pela remoção do  palácio surge a proposta de transferir, mais uma vez, o Chafariz Monumental da Praça da Bandeira  para a Praça Manhatan Guandi, poupando-o das freqüentes enchentes. A desmontagem tem início em 1978

Ciente dos abalos causados a cada mudança de lugar não só deste, mas de outros monumentos da cidade, a prefeitura oficializou a preservação propondo o tombamento do Chafariz Monumental do Monroe, na Praça Mahatma Gandi, em 03 de fevereiro de 1988.  A iniciativa foi seguida pelo Governo Federal, fevereiro de 1990, em reconhecimento ao valor artístico e histórico dessa obra. 

Em 1999, mais uma vez em função do crescimento da cidade, a Prefeitura autorizou a construção de garagens subterrâneas sob as áreas públicas. A primeira concretizada foi justamente do espaço onde estava o Chafariz adquirido  por D Pedro II.   Assim novamente ocorre a desmontagem do chafariz que teve início em junho de 2001 na presença de representantes da Fundação Parques e Jardins, Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Instituto Nacional de Tecnologia e dos restauradores franceses Marcela Munoz e Stéphane Pennec.

 
A desmontagem do Chafariz Monumental do Monroe e o seu entorno.

A desmontagem das peças de ferro que ocorreu em três dias.  Aos poucos, conforme iam sendo removida, cada uma das partes era transferida do canteiro de obras para o depósito municipal. Nesta etapa ficaram evidenciadas as corrosões dos parafusos, nos encaixe e o desgaste da pintura. Pode-se constatar também  o grau de corrosão interna, bem como a existência de rachaduras na bacia de acumulação e fendas na escultura  “ÁSIA”.
                                                             
O desmonte e a conseqüente avaliação do estado geral das peças permitiu à equipe dimensionar o nível de comprometimento e elaborar um projeto de restauração que contemplasse todo o equipamento. Foi realizado o mapeamento minucioso dos danos existentes em cada uma das 37 peças que o integram, em suas faces interna e externa.

 Detalhe do Chafariz do Monroe

 Transporte do ferro fundido


Em 2002, teve início, enfim, a  restauração após aprovação de todos os órgãos ligados à preservação do patrimônio histórico e artístico.  Todas as peças foram decapadas e aquelas com cimento tiveram a remoção manualmente.  Os moldes de borracha de silicone e gesso foram confeccionados no local para reconstituir as partes danificadas ou faltantes, fundidas com material semelhante ao original, em dimensões, aspecto e qualidade
                                                                             
Na recomposição da perna e dos pés das duas alegorias, seriamente danificadas por corrosão, teve preenchimento interno utilizou argamassa e cal sendo externamente reconstituído em ferro fundido.

Em função dos diversos agentes ambientais  a que se encontra submetida - corrosão atmosférica urbana-marinha, incidência de raios ultravioleta e imersão intercalada de água, foi utilizada tinta linha Internacional nas seguintes condições:  uma demão  de fundo com 125 micros, uma intermediária na mesma espessura em tom cinza claro e outra de acabamento de 75  perfazendo um total de 225 mícron.  Nesta fase foi contratado um inspetor de pintura industrial, para detalhar os procedimentos técnicos e acompanhar as etapas de limpeza e aplicação da tinta especificada.

A montagem do chafariz obedeceu aos mesmos critérios empregados na operação de desmontagem, segundo codificação estabelecida na planta topográfica e com cuidados redobrados para evitar danos na pintura.

Os parafusos foram substituídos por de aço carbono, e os rejuntes e encaixes foram preenchidos por resina epóxi. Após período de cura foram nivelados e pintados com a mesma tinta de acabamento. Todos os bicos foram refeitos em bronze. Com o chafariz já completamente remontado e suas lacunas preenchidas, uma última inspeção conferiu a estanquiedade.

 Montagem do Chafariz do Monroe

A reinauguração em 2004 marcou também o fim da restauração do Chafariz Monumental do Monroe, que no auge de sua belíssima e inspiradora forma, voltou a encantar todo os que transitam pelo Centro da Cidade do Rio Janeiro.



Conjunto  escultórico da Praça Tiradentes.


Este conjunto representando símbolos das virtudes das nações modernas – Fidelidade, Lealdade, União e Justiça  também foi selecionado por D. Pedro II, em 1889. As estátuas deveriam ornamentar a Praça da Constituição, onde em 1862, fora erguido o primeiro monumento do Brasil – uma homenagem do Imperador a seu pai, Pedro I.





                                                                                    
Durante 60 anos o conjunto permaneceu no local, sem que se saiba até hoje quais motivos levaram a transferir, na década de 50, as estátuas para o Campo de São Cristóvão, de onde saíram, em 1986, devido à construção de uma via expressa.

Em 1992, as belas estátuas de Mathurin Moreau foram reinstaladas, sem considerar suas “raízes históricas” e sem os pedestais originais, nos jardins do Parque  Noronha Santos,  no Centro.  Permaneceram relegadas ao ostracismo até 1999, quando foram novamente deslocadas, desta vez, para representar a arte em ferro fundido das Fonderies do Val D’Osne na exposição montada temporariamente em importante praça da zona sul carioca, para valorizar a importância dessas obras.  

Paralelamente, neste mesmo ano, a Prefeitura do Rio deu início a um novo programa  visando à restauração da Praça Tiradentes e o casario existente em seu entorno.  O projeto, financiado através do Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Ministério da Cultura, em convenio com a Secretaria Municipal das Culturas, incluía a restauração do Monumento à D.Pedro I e a volta dessas estátuas e seus pedestais originais. A aprovação do orçamento e liberação dos recursos, em 2002, deu início ao projeto.

O único pedestal remanescente, pertencente à “União” serviu de modelo para a execução das partes faltantes nos demais.  Com base no levantamento  métrico foi possível reconstituir partes deterioradas e desaparecidas, como as placas de identificação (Justiça, Fidelidade e Liberdade).

A remoção das diversas camadas de tintas que encobriam as esculturas recuperou  a riqueza da obra evidenciando o planejamento, os detalhes de cada figura e a perfeição de suas linhas em ferro fundido. Ao contrário do Chafariz do Monroe, as inúmeras camadas de tinta protegeram as estátuas, porém quase descaracterizaram o grupo. A única fenda encontrada e sem expansão de corrosão estava na figura da Justiça, e sugeria a possibilidade de uma bolha no processo de fundição.

O bom estado e a integridade das peças geraram apenas pequenas intervenções junto a depressões na superfície e, na fenda o preenchimento em massa epóxi. A pintura de acabamento foi feita com o conjunto já reinstalado na Praça.



Escultura da Sereia  do Campo de  Santana

Em 1873, o Imperador D Pedro II, após a contratação do  paisagista Auguste  Glaziou  iniciou as obras de paisagismo do Campo de Santana, parque inaugurado em 1880, no dia da nossa independência, sete de setembro. Segundo relatos da época, o Campo era cercado por artísticas grades de ferro, caminhos cobertos de areia fina, lindas árvores e arbustos que se espalhavam nos gramados, pequenos lagos e canais, atravessados por pontes “que fingem pedras”, ilhas ornadas por pedras e vegetação exótica, mesclada por belas figuras e repuxos d’água.  À exceção da redução de parte de sua área total, em 1945, em função da abertura da Avenida Presidente Vargas, o parque permanece o mesmo.

A figura que merece destaque é uma fonte, de autoria do artista Serres, que foi instalada por Glaziou para abastecer um dos lagos do parque.  Em  2006, a bela Sereia completou 126 anos de ininterrupto funcionamento.  Neste mesmo ano, uma limpeza do fundo  do lago exigiu a retirada da água permitindo a aproximação da escultura e a avaliação de seu real estado de conservação ante os efeitos da água. Os sinais de degradação eram grandes: corrosão acentuada e deformação dos dedos, rosto e do peixe.

  


A ausência de garantias de que após tratamento adequado o acompanhamento visual fosse suficiente para detectar e sanar futuros problemas sem risco de comprometer irreparavelmente a escultura determinou sua retirada e a preservação da Sereia original, após restauração, em local mais resguardado.
 
Para não comprometer a bucólica paisagem criada por Glaziou, foi instalada no local  uma réplica em bronze,  visando  à salvaguarda do Patrimônio Público.



Guarde essa

Conservação dos Monumentos públicos da Cidade do Rio de Janeiro

A Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, através da Fundação Parques e Jardins, mantêm ininterruptamente desde o ano de 2000, contratos com firmas especializadas, para garantir o funcionamento das maquinas dos chafarizes  e a limpeza dos 690 Monumentos públicos da Cidade, contra  as pichações, ao acumulo de sujevidade, dos resíduos de animais, numa ação preventiva para a preservação. O programa conhecido como “tolerância zero “ 
representa um custo anual de cerca de  325 mil  dólares, que corresponde a 1/3 do orçamento previsto para a conservação das obras. Esse programa visa no menor tempo possível remover as pichações, inibindo assim as ações de vandalismo e da  depreciação das obras de arte.  Trata-se de uma ação continua que obriga a uma fiscalização constate, que tem alcançado resultados importantes na valorização e na divulgação da nossa Cidade.


Esse artigo foi publicado em Metais: restauração e conservação/ Carlos Bernard R.;organização Felipe Reigada, Laura Di Biasi, Leyla Mariath - Rio de Janeiro: In-Folio,2009.



segunda-feira, 23 de março de 2015

Restauração e conservação: o caso particular das obras de arte do Passeio Público



O Passeio Público do Rio de Janeiro, primeiro jardim público do Brasil, foi construído em fins do século XVIII pelo Mestre Valentim e tombado em 1938 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. O jardim passou por intervenções ao longo do tempo, mas o objetivo de restauro promovido em 2004 pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro foi resgatar as características do jardim de Glaziou, com valorização dos vários aspectos do projeto de Valentim nele presentes.

O botânico francês Auguste François Marie Glaziou veio ao Brasil em 1858, a convite de D. Pedro II, e aqui permaneceu por 39 anos, implantando os espaços verdes da Corte e preservando-os. Ele trouxe à cidade do Rio de Janeiro os jardins nos moldes ingleses, com alamedas sinuosas em torno de um grande canteiro central.

No Passeio Público, Glaziou manteve os principais elementos decorativos construídos pelo Mestre Valentim. E eram justamente eles que, neste início de século XXI, mais evidenciavam a degradação do espaço. Nos anos 1990, medidas pontuais de recuperação não lograram bons resultados. A ausência de uma atuação constante de conservação no parque fechado inutilizava qualquer iniciativa e desestimulava novas tentativas.

Em 1998, quando a prefeitura providenciou a recuperação dos quiosques de madeira, as construções foram duramente atacadas, em plena obra, provocando a destruição do madeiramento, com a clara intenção de não se concretizar ali um posto de vigilância.


  Foto 1: Balaustrada do terraço danificada para o furto dos balaústres – 2000


 Foto 2: Face interna da coluna do portão de acesso – Portão do Mestre Valentim - 2001


Diante dessas ações, além dos inúmeros outros danos sofridos pelo parque, era imperativa a necessidade de se elaborar um plano de revitalização do Passeio Público. Com esse objetivo, sob a orientação de técnicos do IPHAN, tive acesso aos primeiros estudos para elaboração de um plano de ações, seguindo o Manual de Intervenções em Jardins Históricos, de Carlos Fernando Delfim, lançado posteriormente – em 2005 – pelo IPHAN. O manual indicava as questões a serem estudadas, servindo como ponto de partida para a contratação do projeto executivo de restauração, com diversos pesquisadores e profissionais a elaborar os planos e ações a serem empreendidos no Passeio Público.
                     



Ao final de 2002, já estavam prontos a pesquisa histórica, o levantamento e o mapeamento dos danos dos elementos decorativos, bem como as diretrizes para os projetos de drenagem, paisagismo, hidrossanitários, sinalização, luminotécnica e elétrica. Assim, foi possível, enfim, elaborar um orçamento para a restauração do parque, o que se concretizou no final de 2003.

Contudo, havia questões históricas importantes que não tinham sido estudadas no projeto, como o processo da transformação da Lagoa do Boqueirão no parque, no século XVIII; a existência ou não das construções apresentadas na planta de Gaziou; a pesquisa icnográfica das construções do início do século XX, introduzidas por Pereira Passos. Tais aspectos levaram à necessidade de uma pesquisa arqueológica, o que se tornou uma exigência no período da restauração do jardim histórico.


  Foto 3: Imagem do portão deslocado para a área interna do parque - 1957

A própria Carta de Veneza, de 1964, um dos mais importantes documentos sobre preservação de patrimônios culturais, recomenda, em seu artigo segundo, a necessidade de as equipes responsáveis pelos projetos serem compostas por profissionais das mais diversas áreas. Assim, foi levada a cabo uma pesquisa verdadeiramente interdisciplinar, com a efetiva interligação dos dados produzidos pelos levantamentos históricos, arquitetônicos e arqueológicos.

Ao longo das décadas, as alterações urbanas provocaram efeitos ambientais no entorno do Passeio Público, o que afetou o meio ambiente do parque. Inundações nos períodos chuvosos, por exemplo, impediam a frequência de visitantes. A queda de árvores centenárias, com o apodrecimento das raízes, e a alteração da inclinação de uma das pirâmides do Mestre Valentim evidenciavam a necessidade de acompanhamento do nível do lençol freático, culminando com a introdução de uma rede de drenagem, até então inexistente no local. Também foram realizados levantamentos nas concessionárias de serviços públicos. E a topografia do espaço foi mapeada, para definir o traçado.



 Foto 4: Pirâmide inclinada com escoramento - 2001

A primeira intervenção física foi a implantação da rede de drenagem, tarefa que, em uma iniciativa inédita, considerou uma legislação específica expressa no Decreto Municipal nº 22.872, de 07/05/2003, cujo Artigo 1º diz que “Todas as obras que envolvam intervenções urbanísticas e/ou topográficas realizadas pelo Poder Público Municipal – direta ou indiretamente, em áreas que sugiram interesse histórico – deverão prever estudos e acompanhamento com vistas à pesquisa arqueológica”.

Assim, as escavações necessárias para o projeto de drenagem seguiram o ritmo e o comando de uma equipe de arqueólogos. A abertura de trincheiras e poços-testes ou qualquer movimento de terra necessário visavam à recuperação de todos os vestígios possíveis, para remontar a história do Passeio Público. Foi encontrada uma grande variedade de material arqueológico: fragmentos de louças dos séculos XVIII e XIX, pedaços de cerâmica, restos de obras (material de construção e de acabamento), ossos humanos e de animais, dentes, vidros e moedas.

Foto 5: Escavação para a construção da nova rede de drenagem

Foto 6: Construção das caixas de drenagem no local

Para desenvolver o projeto de pesquisa arqueológica do Passeio Público, a assessoria de Arqueologia da 6ª Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (6ªSR/IPHAN) se uniu a profissionais da Fundação Parques e Jardins e da FB Engenharia, com a participação de consultores, arquitetos, arqueólogos, historiadores e paisagistas.


 
Foto 7: Fonte do Jacaré com a bacia completa - R. H. Klumb. Bliblioteca Nacional, 1860


 Foto 8: Fonte do Jacaré - 1996



 Foto 9: Escavações preliminares no entorno da bacia - 2004



Foto 10: Fonte do Jacaré após a restauração de todos os elementos (bronze, cantaria, mármore lioz e ferro fundido – 2004

A partir do projeto de Glaziou, outros vestígios de épocas passadas foram encontrados, como o lago do chafariz na entrada do parque e a casa de Glaziou, que ali habitou. Também foram localizadas algumas intervenções do inicio do século XX, até então desaparecidas, como o Aquário e o Theatro-Cassino.

 
 Foto 11: Lago implantado por Glaziou na entrada do parque e a fonte do Jacaré no fundo – Foto do arquivo do Museu da Cidade

Para o resgate do paisagismo implantado por Glaziou, fez-se uso do levantamento florístico que integrou o projeto executivo do parque, mas também do estudo de outros espaços de Glaziou e dos registros iconográficos do próprio Passeio Público. Nessa fase, a participação de especialistas no trato de jardins históricos foi essencial.
Segundo a Carta de Florença, de 1982, “o trabalho de restauro deve respeitar as sucessivas fases da evolução do jardim em questão. Em princípio, não se deve dar precedência a nenhum período sobre outro, exceto em casos excepcionais, quando o grau de destruição e de danos que afetam algumas partes de um jardim sejam tais que seja decidido reconstruírem-se essas partes, com base nos vestígios que sobreviveram ou em evidências documentais indiscutíveis. Esse trabalho de reconstrução pode ser executado, especialmente, nas partes do jardim situadas mais perto do edifício nele contido, para se fazer sobressair o significado dessas partes do conjunto.”

No Passeio, algumas novas espécies estavam presentes, tendo sido mantidas as que eram compatíveis com o projeto. Permaneceram, por exemplo, os paus-reis ao lado direito da Fonte do Jacaré. No lado esquerdo, foram plantadas palmeiras-imperiais, para formalizar o plantio de Glaziou. E resgatou-se a perspectiva da mesma fonte a partir do portão de acesso, que estava completamente obstruída por um grande bambuzal no canteiro central.



Foto 12: Plantio de Palmeira Imperiais ao longo do terraço de acordo com o projeto de Glaziou no local onde foram encontradasresquicios arqueológicos de  parte da construção do Teatro Cassino.


 Foto 13: bambuzal no centro do parque que obstruía a amplidão do parque e obstruía a visão da Fonte do Jacaré - 2002


Foto 14: área central do parque sem o bambuzal conforme projeto paisagístico de Glaziou - 2005

A restauração do jardim recuperou o uso do Passeio Público pela sociedade, como um espaço amplo e limpo com recantos.

Foto15: Recanto de rocailles onde a Glaziou introduziu elevação e pedras decorativas no parque.

Os elementos decorativos do parque estavam em evidente degradação, incluindo suas esculturas, pontes, guarda-corpos, postes, lagos, bustos, o portão do Mestre Valentim e a Fonte do Jacaré. Por conta disso, foram convocados vários profissionais especializados no tratamento de diversos materiais. Diferentes equipes trabalharam simultaneamente, limpando, decapando, modelando, fundindo e lavando as muitas peças do acervo escultórico do parque.



 Foto 16: Limpeza e tratamento do pedestal de pedra sabão do Monumento a Castro Alves

Foto 17: Limpeza e tratamento dos postes em ferro fundido

Foto 18: Execução de parte faltantes da bacia da Fonte do Jacaré

Durante as restaurações, alem de recuperar o projeto de Glaziou,  a grandeza da arte do Mestre Valentim foi recuperada, com a remoção das inúmeras camadas de tinta que se acumulavam sobre o ferro e o bronze do medalhão do Portão Monumental do parque, fundido no Rio de Janeiro em 1768. A peça havia sido retirada do Passeio Público em 1996, para a entrada de caminhões de limpeza, estando, desde então, sem o devido reconhecimento de sua importância para a cidade.

Foto 19.Frontão do portão Monumental guardado no depósito da Prefeitura de 1998 a 2004

Foto 20. Frontão no portão Monumental em 2004

Desde o ano de 2004, com o fim da restauração, a limpeza do Passeio Público tornou-se diária e a segurança passou a ser 24 horas. Contudo, ao longo dos anos, os serviços de poda das árvores, manutenção dos jardins e limpeza dos monumentos seguiram ineficientes. Furtos de balaústres e de pequenas peças de bronze, além dos danos à iluminação, evidenciavam a fragilidade do espaço e pronunciavam uma nova fase de decadência.
A conservação passou a ser a maior preocupação, devido aos danos causados pela ação do tempo e da utilização do bem patrimonial, que necessitariam ser amenizados através de medidas preventivas. Em 2009, quando assumiu no Rio de Janeiro uma nova gestão municipal, predominou o entendimento de que os parques, praças, ruas e avenidas da cidade necessitavam de conservação, não apenas de novas obras. Em 2010, a prefeitura organizou uma nova secretaria de governo para manter e revitalizar os espaços públicos, a Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos, passando a executar as novas intervenções urbanas, separada da antiga Secretaria de Obras.   Entretanto, o entendimento do conceito de “monumento vivo” ainda não é facilmente assimilado, representando um dos principais desafios para a manutenção.


Esse artigo foi publicado em Arqueologia na Paisagem: olhares sobre o jardim histórico/ Orgs. Jeanne Trindade, Carlos Terra - Rio de Janeiro: Rio Book's, 2014


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Os marcos rodoviários da Cidade do Rio de Janeiro

Os marcos rodoviários são uma referência “esquecida” na nossa Cidade. Foram instalados início da década de 30 (1930) para orientar as distâncias entre localidades, no momento que se iniciava o ciclo rodoviário no Brasil.
Executados em gnaisse, na forma de lápide, estes pequenos equipamentos urbanos perderam sua funcionalidade ao longo do tempo e, talvez por esta razão, muitos tenham sido removidos, sem que lhes creditasse qualquer valor.

Nos que ainda restam é possível identificar a indicação “ERF” (Estrada de Rodagem Federal), com a informação em quilômetros, da distância do ponto onde se encontra até o Centro. Na face posterior, a inscrição “DF” (Distrito Federal) indica o período em que a Cidade do Rio de Janeiro era a capital do país, e nas faces esquerda e direita, o registro da distância de duas localidades próximas.

Curiosamente, o levantamento dos marcos rodoviários é fruto da pesquisa isolada de um jovem, Giovani Boechat Chiste que relacionou todos os que encontrou, contribuindo assim para o cadastramento dos Monumentos da Cidade.

E é ele quem conta como foi que tudo começou:

"Desde criança tive interesse por história. Minha mãe sempre me levou aos museus, parques, palácios... me acostumei a ver, a ler, a conhecer a história. Somado à sorte de morar no Rio de Janeiro, capital do Império e depois da República, meu gosto pela história foi facilitado por estar sempre perto de lugares que contam a história do nosso país. E a História não está só nos bairros do Centro e Zona Norte da cidade. Ela está espalhada por todos os bairros do Rio. Cada um com sua particularidade de como começou, desenvolveu-se e se transformou no que é hoje.

No início de 2012 estava andando por um desses bairros, Campo Grande, na Zona Oeste, quando um bloco de pedra gnaisse chamou minha atenção. Tinha algumas inscrições e parei para olhar de perto. Eu ainda não sabia que naquele momento estava fazendo uma descoberta fantástica no meu mundo de amante da história. O morador da casa em frente cuidou muito bem da peça, mantendo-a limpa e conservada, o que me fez enxergar o pequeno monumento. Em uma das faces havia a inscrição “F. CAXIAS”. E então o ponto de partida da minha pesquisa foi encontrar o que era F. Caxias. Descobri ser um bairro do então distrito de Seropédica, emancipado de Itaguaí em 1995. Nas pesquisas encontrei o decreto 18.323 de 24 de julho de 1928, primeiro estatuto sistematizado tratando de trânsito e que ficou em vigência até o primeiro Código Nacional de Trânsito, em 1941. Em seus artigos 14 e 15 determina a instalação de “marcos kilométricos” nas “estradas públicas”. Diz também que eles deveriam ser instalados “de 1.000 em 1.000 metros, contados a corrente.” Dias depois de encontrar o primeiro, acidentalmente encontrei outro em Pedra de Guaratiba. Hoje já são quase trinta encontrados pela cidade e acredito que há muitos outros por descobrir. 



O primeiro marco encontrado na Avenida Cesário de Melo, 216.



Giovani Boechat Chiste


Graças ao levantamento de Giovanni, 29 marcos já foram localizados e por essa publicação, dois outros foram identificados, uma na Gavea em outro por Juarez Correa em Campo Grande. Abaixo, seguem os endereços de cada um para que sejam conhecidos e preservados, recuperando seu lugar na história de nossa cidade. 

1 - Praça Santa Cruz -  Santa Cruz
2- Largo da Maçonaria - Campo Grande

3 – Avenida Cesário de Melo 6438 - Inhoaíba

4 – Avenida Cesário de Melo 214 - Campo Grande

5 – Avenida Artur Rios 1414 -  Campo Grande

6 – Avenida Burle Marx, 8300 -  Guaratiba

7 – Estrada do Mato Alto 3686 -  Campo Grande

8 – Estrada do Mato Alto 4560 - Campo Grande

9 – Estrada do Mato Alto 5550 - Campo Grande

10 -  Av. Cesário de Melo 9612 - Kosmos

11 – Estrada do Cabuçu 3416 - Campo Grande

12 -  Av Joaquim Magalhães 439 - Senador Vasconcelos

13 - Av. Cesário de Melo 1127 - Campo Grande
14 - Rua Barros de Alarcão 901 – Pedra de Guaratiba
 15 -  Estrada de Sepetiba 976 - Sepetiba

16 -  Estrada  de Sepetiba 1882 - Sepetiba

17 – Estrada de Sepetiba 3154 - Sepetiba

18 – Estrada da Matriz s/nº - Guaratiba

19 -  Estr. dos Bandeirantes 29990 – Vargem Grande

20 – Rua Uranos 823  - Ramos

21 - Estrada do Joá 3320 - Parque Nacional da Tijuca


22 -  Estrada do Joá  2492 - Parque Nacional da Tijuca

23 -  Rua Francisco Real 687 – Padre Miguel

24 - Estrada  da Matriz 6966 - Guaratiba

25 - Estrada das paineiras s/nº - Parque Nacional da Tijuca

26 - Estrada da Vista Chinesa 707 – Parque Nacional da Tijuca

27 - Estrada da Vista Chinesa  1003 – Parque Nacional da Tijuca

28 - Estrada da Vista Chinesa 1579 – Parque Nacional da Tijuca

29 - Campo de Marte - Realengo

30 - Estrada da Gávea, 10 - Gávea
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31. Estrada do Marapicu com Estrada da Serrinha -   Campo Grande.


Marcos incluídos em em 12 de janeiro de 2015, identificados por Luis Verdugo.

32. Estrada Velha de Barra de Guaratiba - Guaratiba ( servindo de apoio de um guarda corpo)
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33. Estrada Velha de Barra de Guaratiba - Guaratiba ( servindo de apoio de um guarda corpo)
https://www.google.com.br/maps/@-23.0681234,-43.5674177,3a,75y,180h,90t/data=!3m4!1e1!3m2!1sr_SmC00SBAZAvAEFtIoytw!2e0


34. Estrada do Morro Cavado 3117 - Guaratiba.
https://www.google.com.br/maps/@-22.98034,-43.570535,3a,75y,40.93h,63.18t/data=!3m4!1e1!3m2!1sh9HGEvPuJHLCj7L78XFj_A!2e0






MARCOS RODOVIARIOS

DECRETO N. 18.323 – DE 24 DE JULHO DE 1928
Approva o regulamento para a circulação internacional de automoveis, no territorio brasileiro e para a signalização, segurança do transito e policia das estradas de rodagem
O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brasil, usando da autorização constante do decreto n. 5.372, de 9 de dezembro de 1927,
DECRETA:
Art. 1º Fica approvado o regulamento, que com este baixa, estabelecendo regras para a circulação internacional de automoveis, no territorio brasileiro, de conformidade com o decreto n. 5.252 A, de 9 de setembro de 1927, e para a signalização, segurança do transito e policia das estradas de rodagem, de accôrdo com as ultimas convenções internacionaes.
Art. 2º Revogam-se as disposições em contrario.
Rio de Janeiro, 24 de julho de 1928, 107º da Independencia e 40º da Republica.
WASHINGTON LUIS P. DE SOUSA.
Victor Konder.

REGULAMENTO PARA A CIRCULAÇÃO INTERNACIONAL DE AUTOMOVEIS, NO TERRITORIO BRASILEIRO E PARA A SIGNALIZAÇÃO, SEGURANÇA DO TRANSITO E POLICIA DAS ESTRADAS DE RODAGEM, APPROVADO PELO DECRETO N.18.323, DE 24 DE JULHO DE 1928.




PARTE II
DA CIRCULAÇÃO DAS ESTRADAS DE RODAGEM
Da segurança do transito
Art. 14. Todas as estradas publicas terão marcos kilometricos, marcos itinerarios, signaes preventivos e serão conservados permanentemente.
Art.15. Os marcos kilometricos, indicadores de distancias e os postes itinerarios, indicadores de direcção, serão collocados de accôrdo com as seguintes disposições:
1º – Os marcos indicadores de distancias ou kilometricos terão a fórma de um prisma rectangular coroados por um meio cylindro, com 0m,25 x 0m,35 de secção e com 0m,65 de altura acima do solo, incluindo o sócco de 0m,10 de altura e 0m,02 de saliencia (estampa n. 4).
a) Serão feitos de cantaria ou de concreto de pedregulho com argamassa de cimento;
b) Serão collocados nas estradas á direita de que sáe da Capital, ou do ponto inicial, de 1.000 em 1.000 metros, contados a corrente;
c) O lado maior do rectangulo ficará perpendicular ao eixo da estrada;
d) A contagem Kilometria terá inicio, nas estradas principaes ou de penetração, no ponto de intersecção da estrada com a linha perimetral, que separa a zona urbana da suburbana da Capital, ou da cidade onde a estrada tem inicio.
2º – Os marcos indicadores de distancias ou kilometricos terão as seguintes inscripções:
a) Na face anterior, em primeiro logar, as iniciaes E R F (Estrada de Rodagem Federal), e em baixo o numero de kilometros medidos, tendo este o tamanho de 0m,07, á distancia de 0m,04 do sócco, e aquellas o tamanho de 0m,20, á distancia de 0m,15 do sócco (estampa n.4 bis).
b) nas faces lateraes os nomes das localidades situadas adeante do marco, no sentido da marcha do viajante, com indicação, á direita, da distancia a percorrer. As letras e algarismos das inscripções serão negros e terão o tamanho de 0m, 07 com a distancia entre si de 0m,09 e separada, a inferior, do sócco, de 0m,10;
c) nas faces lateraes nunca serão inscriptos mais de dous nomes de localidades, sendo na parte superior o da que estiver mais perto;
d) quando na distancia a percorrer houver fracção de kilometro, será indicada em fórma decimal;
e) nas faces posteriores serão indicados o nome do municipio e altitude do local sobre o nivel do mar.
3º – Os itinerarios são de cinco especies:
I) Marcos indicadores de cidades ou povoações;
II) Marcos dentro das cidades ou povoações;
III) Marcos simples de direcção;
IV) Marcos triplos de direcção.
4º – Os marcos itinerarios ou indicadores de direcção consistirão em uma placa de ferro, pintada com um fundo azul escuro e com a inscripçãp em letras brancas e flexa branca, conforme os itens 7º e 8º, tendo ou não postes com as dimensões aqui estabelecidas;
a) os caracteres da inscripção que indica a direcção serão latinos e os dos algarismos, que indicam distancias, serão arabes, com a inicial da palavra kilometro;
b) quando houver fracção de kilometro na distancia indicada, será representada por fórma decimal;
c) os algarismos indicando as distancias serão collocados á esquerda ou á direita, ou em ambos os lados da inscripção, conforme esta fôr á esquerda, ou á direita ou em frente, no sentido da marcha;
d) cada placa não terá mais de dous nomes de cidades ou de povoações;
e) quando a placa fôr mural, terá 4, 6 ou 9 furos e será affixada em parede por meio de parafusos de cobre com tampões de madeira; quando não fôr mural, será affixada em postes de ferro em T medindo 2m 75 acima do solo ou em postes como os descriptos na letra b do item 8º.
5º – O marco indicador de cidade ou povoação consistirá em uma placa de 0m,25 de largura, de comprimento variavel, pintada a azul escuro, com o nome da cidade ou povoação, em letras brancas, tendo estas a altura de 0m,12.
Esse marco poderá ser mural ou em poste, mas será sempre collocado á entrada da cidade ou povoação e perpendicularmente ao eixo da estrada.
6º – Os marcos dentro da cidade ou povoação consistirão em uma placa de fundo azul escuro com 0m,30 por 0m,60, com uma só inscripção e flexa indicadora, brancas, com indicação do kilometro; serão muraes ou em postes e serão collocados á direita do viajante em tantos logares quantos forem necessarios para bem guial-o.
7º – Os marcos simples de direcção consistirão em uma placa de 0m,60 x 0m,40 com fundo azul escuro, com as indiscripções e flexa em branco, tendo as letras a altura de 0m,30 (estampa n. 5);
a) esses marcos podem ter um ou dous nomes de cidades ou povoações, com a distancia inscripta á direita ou á esquerda, conforme a direcção a tomar;
b) poderão ter inscripção em uma ou em ambas as faces;
c) serão collocados nas estradas que bifurcam em angulo muito agudo;
d) serão tambem collocados para marcação aos viajantes, nas estradas de bifurcação ou de cruzamento, da direcção a tomar;
e) serão collocados em postes pintados de branco, em T, com 2m,75 acima do solo;
f) serão collocados perpendicular, parallela ou obliquamente ao eixo da estrada, de modo a apresentar completa visibilidade.