segunda-feira, 23 de junho de 2014

O "Inverno" do Passeio Publico.

Uma das histórias mais curiosas a respeito dos monumentos de nossa cidade é a que trata da estátua do “Inverno”, de autoria do escultor francês Mathurin Moreau e parte da coleção em ferro fundido do Val D’Osne, instalada no Passeio Público.

No início dos anos 90, atendendo solicitação das Fundições Francesas do Val D’Osne que catalogava suas peças espalhadas pelo mundo, a Prefeitura do Rio promoveu um levantamento destinado a identificar e localizar o acervo existente na cidade.


Até então, os arquivos e a documentação municipal contemplavam quase que com exclusividade os registros referentes a obras em homenagem a personalidades e fatos relevantes da história, deixando de lado esculturas e equipamentos urbanos, desconsiderando valores artísticos e/ou emocionais das comunidades em que se inseriam. 

Eis que durante o levantamento iconográfico das peças em ferro fundido francês instaladas no Passeio Público observou-se que o conjunto representativo das estações do ano, de Mathurin Moreau, possuía apenas 3 peças: o “Verão”, o "Outono" e a "Primavera", faltando para formar o conjunto uma escultura alusiva ao "Inverno". Em seu lugar, provavelmente para “fechar” o quarteto, havia uma “Diana de Gabis”, também pertencente às coleções do Val D’Osne, e que havia sido  transferida para a Praça Barão da Taquara, (conhecida como Praça Seca) em data e por razões também  desconhecidas.


Primavera  Outono



 

Voltando ao “Inverno” do Passeio Público: Para aumentar o mistério da  estátua “sumida”, o catálogo original das peças de Val D’Osne não trazia qualquer desenho que mostrasse a peça, o que permitiria sua identificação ou, a confecção de uma réplica, caso sua existência no local fosse comprovada.

Enquanto as buscas em catálogos por uma “imagem” de como seria a representação criada por Mathurin Moreau movimentavam pesquisadores e aguçavam a curiosidade, adotou-se uma “justificativa popular” para explicar o conjunto desfalcado: Dizia-se que o paisagista francês Auguste Glaziou, que reformulou o parque em 1860, não incluiu a escultura do Inverno porque no Rio de Janeiro não havia essa estação para representar.  "No Rio não tem Inverno” teria dito ele.

Somente em 1998, com ajuda do advogado Francisco José Andrade Ramalho que localizou e apresentou uma foto do conjunto similar e completo que havia em Montevidéu foi possível visualizar o “Inverno” de Mathurin Moreau. 

Ao contrário do que se pensava, era uma figura feminina inspirada na deusa romana Vestal, protetora dos lares e templos e associada ao fogo sagrado. A escultura possuía originariamente uma lamparina aos pés e uma das mãos se aquecia com o calor do fogo.




De posse da imagem, faltava descobrir se o Inverno fazia parte do conjunto original do Passeio Público, e, se lá não estava, qual seu paradeiro.

Novamente contamos com o auxílio do professor e advogado que localizou-a nos jardins do Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, no bairro de Santa Teresa, desfazendo o folclore de que Glaziou não havia encomendado a escultura do inverno para a Cidade. 

O conjunto em ferro fundido das Estações do Ano de Mathurin Moreau é único em nossa cidade. Não há registro de peças semelhantes em outros locais. 

De tempos em tempos o interesse e a necessidade de preservação do conjunto do Passeio Público mobilizam as esferas públicas. Em 2000, durante o projeto de restauração do parque, a escultura do Inverno de Mathurin Moreau foi retirada do Centro Cultural Laurinda Santos Lobo e transferida para o parque, recompondo o conjunto das estações do ano. A remoção foi acompanhada com tristeza por muitas senhoras do bairro e que por anos se reuniram, em oração, aos pés daquela que acreditavam ser uma santinha.


 Escultura na Casa de Laurinda Santos Lobo.



 

 Retirada da escultura da Casa

Apesar dos esclarecimentos quanto à origem e autoria, o porquê de a escultura do Inverno ter sido instalada em Santa Tereza, é a parte da história ainda não desvendada. Quem sabe, Glaziou considerou o bairro, localizado numa encosta, o único local com ares de montanha suficiente para justificar a presença dessa estação de ano na cidade? Mas isso é uma outra história...

  Passeio Público.


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Preto Velho - Monumento em Inhoaiba, Campo Grande

.Inaugurado em Inhoaiba  durante as  comemorações dos 70 anos da libertação dos escravos  (13 de maio de 1958), o monumento criado por Miguel Pastor foi o primeiro de caráter religioso implantado no espaço público em reconhecimento à simbologia e imponência dreligião afrobrasileira.
O homenageado foi o Paizinho Quincas,  Joaquim Manuel da Silva,  um escravo de grande popularidade na região, pela sua autoridade moral e conduta. Nasceu em 1º de janeiro de 1854 e viveu por 109 anos, falecendo em 1963, cinco anos depois da inauguração do monumento.

 imagem cedida por Teresa Branco Mendes

A  inauguração ocorreu com pompa e caráter cívico na presença do Prefeito Negrão de Lima e autoridades locais, do escultor e da grande incentivadora da obra, a Sra. Elza Osborne, além do próprio Tio Quincas.
Inicialmente  o conjunto era constituído pela estátua em bronze do Tio Quincas, ao centro da construção protegida por um lago, com repuxos luminosos e iluminação subaquática com 10 lampadas.
O obelisco de 9 metros de altura, revestido em pastilha bege,  possuía  letras de bronze afixadas com os dizeres: 13 de maio de 1888 – 13 de maio de 1958.


Imagem cedida por Tereza Branco Mendes

Na área posterior ao obelisco, um mural de  3 metros de altura por  6 metros de largura, dividido em dois painéis registra em pastilhas amarelas, pretas e vermelhas desenhos criados pelo artista.
   frontal

  fundos

No piso,  pedras portuguesas pretas e brancas, reproduzem  um Ponto de Rei Congo  desenhado no terreiro de mãe Apolinário em Porto Alegre ( terra natal do escultor).




 piso frente 

 piso fundos

Nos anos seguintes à inauguração, sua importância cresceu e em 1983 a festa ao Preto Velho, passou a fazer parte do calendário oficial de eventos da Cidade do Rio de Janeiro, (Lei nº 476 de 14 de dezembro assinada pelo Prefeito Marcelo Alencar)


Por volta dos anos 90 (Século XX),  a festa no dia 13 de maio era o maior acontecimento da região, durando vários dias e contando com a  participação de diversos terreiros.
Contudo, após uma tentativa de furto da estátua do Paizinho Quincas, a Administração Regional de Campo Grande optou por recolhê-la, reinstalando-a somente às vésperas dos festejos  de  Preto Velho,  no dia 13 de maio de cada ano.
  2003  2014

O monumento sem o homenageado em exposição, perdeu sua importância e a construção passou a ser vitimada pelo vandalismo e depredações, apesar das constantes limpezas  promovidas durante o ano, em especial na época das festas.



 2003


 2006

Por outro lado, no final dos anos 90, um morador do bairro construiu com seus próprios recursos uma cabana para a Tia Maria Quirina, conhecida como a Tia Maria do Sul de Minas. A estátua em argila representa a escrava cortadeira de cana, trazida para o Rio de Janeiro para ser a ama de leite de uma criança recém nascida na Cidade, e também um cruzeiro em madeira.
Esse morador  procurou a Fundação Parques e Jardins em 1999, para solicitar reparos na cabana por ele construída, por que vândalos haviam arrombado a porta de ferro guardava a instalação. 
 
fotos do ano de 2006

A presença da imagem  da Tia Maria, representada por uma figura singela e protetora reuniu os adeptos e defensores dos cultos afro-brasileiros na garantia do espaço em homenagem aos Pretos Velhos, tanto que, desde 2006,  fundadores da  APAACABE  (Associação de Proteção aos Amigos e Adeptos do Culto Afro Brasileiro e Espírita) buscam o resgaste da festa e a história da Praça.


O ano de 2011 foi marcado por grande transformação do bairro de Campo Grande e a construção de um viaduto na rua onde estava situado o monumento causou mobilização dos moradores e religiosos na defesa do monumento e do espaço da tradicional festa do Preto Velho.
   2011

Em 2013, a Associação de Proteção aos Amigos e Adeptos do Culto Afro Brasileiro e Espírita, adotou o monumento e, em parceria com a Prefeitura, promoveu o cercamento e a reinstalação da estátua do Paizinho Quincas, garantindo assim sua preservação.
 Finalmente, no dia 13 de maio de 2014, após 56 anos de inaugurado o monumento, a festa em homenagem aos Pretos Velhos ocorreu com a presença definitiva da estátua do Paizinho Quincas e a  recuperação de toda a construção.
  






terça-feira, 20 de maio de 2014

200 000 visitas



Hoje estou comemorando o blog: as histórias dos monumentos do Rio.

Em três anos e meio recebeu cerca de 174.000 visitas no Brasil e 26.100 de diversos países, principalmente dos Estados Unidos, China e Portugal.

Obrigada a todos que sempre incentivaram e ao meus editores, Alexandre Santos e Stela Elliot, que gentilmente dedicam seu tempo a ordenar os textos.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Manoel Branco Mendes - A homenagem reencontrada.

  • A grata tarefa de resgatar fatos e personagens da nossa história.
     
     Transformações urbanas não são novidades no dia a dia de grandes cidades como o Rio de Janeiro. Justificadas pelo progresso, pelo desenvolvimento e pelo conforto da população muitas vezes resultam em perdas referenciais e afetivas de seus moradores. Nada que um pouco de sensibilidade e persistência não possam, quando possível ou por sorte, resgatar e devolver a seu devido lugar na história dos cariocas. Veja só! 

  •      Em novembro de 2013 o jornal O Globo publicou em sua primeira página a existência de uma “coleção de cabeças” guardadas no depósito da Prefeitura. Todas sem identificação há mais de 20 anos, aguardando algum indício que permitisse seu reconhecimento.
         Com a divulgação das peças, a expectativa municipal era a de que familiares, amigos ou possíveis moradores vizinhos pudessem identificar os homenageados ou fornecer fotos de época que facilitassem seu reconhecimento, permitindo assim, que suas histórias fossem conhecidas.
          E não é que deu certo?
      
  •  Foto do Jornal O Globo publicada em 3/11/13
Eram 6 (seis) cabeças e um busto guardados no depósito da Gerência de Monumentos e Chafarizes sem  qualquer referência sequer de suas respectivas localizações.



No dia seguinte à publicação, um familiar do Sr. Manoel Branco entrou em contato com a redação do jornal, informando que havia reconhecido entre as peças, a que representava seu patriarca. Fotos da inauguração do monumento, em Campo Grande, comprovavam o reconhecimento.

  

 Fotos cedidas pela Sra Theresa Branco, filha de Manoel Branco.

A partir dessa identificação, a Gerência de Monumentos deu início aos contatos com a família para a recuperação do personagem, a reconstituição dos “passos” percorridos pelo monumento e sua reintrodução no cenário carioca.
Com base nas informações obtidas, sabemos agora que a imagem de Manuel Branco foi confeccionada por Miguel Pastor, seu amigo, e instalada sob o Viaduto Prefeito Alim Pedro, em Campo Grande, por volta de 1980. Devido aos inúmeros furtos ocorridos na região, foi recolhida por precaução ao depósito municipal e lá permaneceu até então.


  Molde em argila de Manoel Branco ao lado de Miguel Pastor. Foto cedida pela família Mendes Branco.

A partir da identificação, em 27 de março de 2014, o monumento foi reinaugurado na presença de seus familiares, no canteiro ajardinado da Praça Alim Pedro, recuperando a história e a justa homenagem daquele que, no passado, participou ativamente da formação do bairro de Campo Grande




Agora vamos conhecer Manoel Branco, segundo relato de sua filha Maria Thereza
Manoel Mendes Branco, filho de José Gonçaves Branco e Joaquina Mendes Branco, nasceu em Guimarães, berço da nacionalidade portuguesa, na Província de Minho, em 14 de setembro de 1898, falecendo em Campo Grande - Rj aos 62 anos, vítima de cancer ( 23/11/1960).  
Manoel Banco chegou ao brasil em 1914, para São Cristóvão - Rj, trazendo o seu curso técnico, feito na Escola Industrial, sendo além disso, profundo conhecer pirotécnico ( tradição de família) e de entalhador, que se aperfeiçoou nos estudos realizados.
Morou em São Cristóvão (1 ano) com seus pais e irmãos (8). Gostava de participar de serestas com amigos.
O amor por Campo Grande foi à primeira vista. Aconteceu quando veio trabalhar numa carpintaria e marcenaria na Rua Coronel Agostinho.
Na vinda para Campo Grande, seu pai instalou uma fábrica de fogos na Rua Butiá ( Morrinho do Fogo).
Manoel Branco cumpriu o ultimo desejo de seu pai, pediu que trouxessem um punhado de terra da cidade de Guimarães para a sua  sepultura.
Manoel branco depois de trabalhar 6 anos na marcenaria, abriu seu próprio negócio, uma casa funerária e com artigos religiosos.
Em Campo Grande, conheceu a jovem libanesa, Farides José Audi, filha de um comerciante conhecido na Colônia Síria do Brasil. Ela veio com 1 ano de idade para o Brasil. Os pais da jovem não aprovavem o namoro, por ele não ser patricio. Para acabar com o romance, a filha foi para a Argentina e lá ficou um ano, na ocasião ela estava com 17 anos. Mas os namorados se comunicavam por cartas, com a ajuda da amiga Olinda Ellis. Mas o amor v enceu. O casamento foi contratado, com ela ainda na Argentina. Foi destaque a noticia num jornal local. Casram em 25 de outubro de 1924, na Igreja Nossa Senhora do desterro. Farides foi sua grande companheira e colaboradora durante toda sua existencia.
Com poucos anos de morador de Campo Grande, Manoel Branco tornou-se um dos principais organizadores de festas de grande significação popular, como a de Santo Antonio ( Curva do matoso), Igreja de Sant'Ana ( Capoeiras), etc. Sendo que na Igreja de Cosmos, foi com grande esforço que conseguiu para seu amigo e comprade Comendador Serafim Sofia, a imagem de Santa Sofia, quase desconhecida.
Mesmo em muitos templos do Estado do Rio, sua fama de organizador de monumentais festas religiosas se propagou; em Piraí de Santana, Itacuruça e em Volta Redonda chegou a realizar grandes festividades na Companhia Siderurgica Nacional.
A festa de Nossa senhora de Fatima Peregrina, que empolgou a população de Campo Grande, deve grande parte de seu brilhantissimo ao trabalho de Manoel Branco.  Ele foi o artificie artístico do carrro triunfal e de vários outros serviços que rpestou com inexcedível dedicação e boa vontade.  Fez esculturas dos meninos pastores, carneiros, etc para o carro com Nossa Senhora de Fátima.
Manoel Branco foi um elemento luso estimadissimo em todas as camadas sociais de Campo Grande. Não gostava que alguém falasse mal do Brasil. "Nuca mediu os esforços, no sentido de melhor servir ao lugar e ao povo que escolhera como companheiros. E os campo-grandenses admiravam a sinceridade do lusitano que já era considerado o mais brasileiros dos brasileiros" (Folha Democrática, 20/12/1960).
Manoel Branco foi um grande inentivador nas festividades esportivas, religiosas e culturais onde estiver, sempre presente o seu toque mágico. Foi ele sem duvida alguma, um dos primeiros a organizar coretos e carros alegóricos para os festejos carnavalescos. As sociedades musicias sempre mereceram especial atenção. Já doente, duas bandas de música passaram e tocaram em frente de sua casa, como ultima homenagem ao seu grande incentivador.
Tinha um apurado gosto pela música clássica, chegava a cantar algumas árias de óperas. Ia sempre com a família ao Teatro Municipal e ao Teatro Arthur Azevedo para assistir óperas e balé.
Colaborou muito com o Teatro Rural de Estudantes. O TRE o homenageou com a entrega de um perfil em bronze, feito pelo artista Miguel Pastor.
Quando a juventude de Campo Grande precisou de um espaço para praticar esporte, Manoel Branco não pensou duas vezes, abriu o portão da sua casa. Numambiente de alegria e respeito foi criado o Gremio Manoel branco, organizado pelos professores Alcides Gils, Olavo e Dirceu Magno de Carvalho, Aquiles e outros, sem fins lucrativos. Praticavam volei, basquete, futebol de salão e pingue pongue. O famoso Algodãp frequentava o gremio. O gremio desfrutava campeonatos com clubes da região.
A quadra de seportes, mais tarde, foi emprestada para o seu grande amigo Professos Passos, um dos proprietarios do Colégio Cesario de Melo, até a conclusão da nova sede.
As festas juninas organizadas por Manoel branco em sua residencia eram grandiosas. Os clubes locais temiam a concorrência. ....Era só alegria.
Inaugurou também um pequeno cinema, em Cosmos, onde tinha vários amigos, principalmente portugueses.
Ainda na sua casa encontramos trabalhos belíssimos entalhados na madeira, tocheiros e colunas, usadas nos carros funerários....
Estava sempre presente, colaborando nos eventos em Campo Grande. Surgiu então, uma grande amizade com a engenheira Elza Osborne, chefe do Distrito de Obras. Depois de morto foi homenageado pela Administração Regional de Campo Grande, Dra Elza Osborne, com um busto em bronze, numa Praça Pública, junto ao Viaduto Negrão de Lima .
Doente recebeu a visita do Governador Carlos Lacerda, que o deixou muito alegre.
Transcrito de um jornal local, "Moderno edifício construído, graças ao idealismo de um grande homem, Manoel Branco, constitui a melhor construção já erguida no coração da capital dos subúrbios cariocas."
O Jornal Imprensa Rural, em 21/12/1959...mas a nossa homenagem no setor de atividade industrial, cabe ao Sr. Manoel Branco que nas circunstancias de todos conhecidas ( o avanço da doença), sozinho dotou Campo Grande de um de seus mais modernos edifícios.O sr. Manoel Branco é sem dúvida, o homem do ano."..

... Ao morrer, por iniciativa da amiga Elza Osborne, engenheira e chefe do Distrito de Obras da Prefeitura, a Administração Regional de Campo Grande o homenageou com um busto em bronze, instalado em praça pública, junto ao Viaduto Negrão de Lima, em Campo Grande. E a Câmara de Vereadores concedeu seu nome a uma rua em Vila Nova. Deixou 6 filhos: Walter Branco casado com Maria Helena Caldas Branco; Nilvanda Branco Quinhões casada com- Hugo Garcia Quinhões; Valdir Branco casado com Celia Amieiro; Thereza Audi Branco Serra - Luiz Jose Serra; Eduardo Branco - Maria Alice C. Osório Branco; Elizabeth Souza - Alcides Gils.

Uma homenagem da família. Ao meu ilustre e tão amado pai,
Thereza Audi Branco Serra


Matérias de jornais:
03/11/2013- O mistério das cabeças sem dono http://oglobo.globo.com/rio/o-misterio-das-cabecas-sem-dono-10671210
05/11/2013 - Fim do mistério para uma das cabeças esquecidas em depósito  http://oglobo.globo.com/rio/fim-do-misterio-para-uma-das-cabecas-esquecidas-em-deposito-10687241#ixzz2khsTU43o 

domingo, 16 de março de 2014

Coreto reconstruído no bairro de Marechal Hermes

Fundado em 1° de maio de 1913, o bairro de Marechal Hermes foi o terceiro bairro operário planejado do Brasil. 
A ocupação no bairro de Marechal Hermes, no Rio de Janeiro, pode ser considerada a primeira intervenção na questão da habitação no Brasil, porque foi planejada para os operários das fábricas. A “vila proletária” foi idealizada pelo então presidente da República, o marechal Hermes da Fonseca, para atender a uma carência de moradia popular, principalmente para aqueles que foram desalojados do Morro do Castelo. Projetada pelo engenheiro e tenente Palmyro Serra Pulcherio, a vila contava com um bulevar, que tinha uma praça no centro e a ligava à Estrada de Ferro Central do Brasil. 


A Vila Proletária Marechal Hermes foi inaugurada pelo presidente em 1º de maio de 1913, apesar de não estar concluída. A construção das moradias populares só foi finalizada duas décadas mais tarde, nos anos 1930, durante o governo de Getúlio Vargas, após a autorização da transferência da posse dos imóveis para o Instituto de Previdência dos Funcionários Públicos da União (IPFPU).


Para o novo planejamento de ocupação, foi proposto um concurso direcionado a arquitetos, no sentido de elaborar um novo plano de ação para o abandonado projeto habitacional de Hermes da Fonseca. No novo projeto da vila operária deveriam constar: um plano geral de urbanização; loteamento para 300 casas econômicas; um mercado; um campo de esporte; parque de diversões; cooperativa de consumo; delegacia de polícia; localização de terreno para maternidade; ratificação do arroio Tinguá e posto de gasolina. Foi convocado um júri para a análise das propostas, composto por Atílio Gomes, Saturnino de Brito (engenheiro), Celso Kelly (presidente dos Artistas Brasileiros) e Affonso Eduardo Reidy (arquiteto). Apresentaram-se dois grupos de arquitetos, cujos projetos acabaram sendo, em 19 de setembro de 1933, recusados pela comissão.

Seguiu-se, então, o projeto original do bairro, apenas modernizado com a construção de blocos de apartamentos. A ocupação aconteceu até a década de 1950, quando foi incluída infraestrutura de lazer, saúde e educação, como o teatro Armando Gonzaga (com projeto arquitetônico de Affonso Eduardo Reidy), o hospital Carlos Chagas, a escola Jose Acioli e a maternidade Alexander Fleming.

O teatro foi inaugurado em 1954. No mesmo, ano, provavelmente, deu-se também a inauguração do coreto da Praça XV de Novembro, localizada no centro do bulevar projetado por Pulcherio em 1913.


 foto de 1957


 foto de 1994

Em 1998, o bairro de Marechal Hermes foi contemplado com o projeto Rio Cidade. Após concurso público realizado pelo setor fluminense do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/RJ), o vencedor foi o escritório L.A. Rangel e C. Cavalcanti, que, sob coordenação do Instituto Pereira Passos e da Secretaria Municipal de Urbanismo, desenvolveu o projeto.

A obra de implantação do projeto foi iniciada em 2003. Entre as alterações previstas, estava a criação de uma rótula central no eixo da Rua Engenheiro Emílio Baumgart e a retirada do antigo coreto para instalação de outro, em estilo contemporâneo, além da retirada do busto do marechal Hermes, que estava instalado na Praça Montese, a praça de entrada do bairro.

 

As informações que obtive na época foi que a demolição do coreto ocorreu em uma noite, gerando inúmeros protestos dos moradores do bairro, que tinham por aquele equipamento uma grande afetividade, pela sua história, como uma referência do bairro. O busto do marechal Hermes foi retirado e guardado no depósito da prefeitura, permanecendo vazio o seu local original.





Após inúmeras solicitações dos moradores pelo retorno de seu patrono, o busto foi reinaugurado no dia 14 de junho de 2011, com a presença dos netos e bisnetos do marechal.

 

O retorno do patrono reacendeu entre os moradores a saudade do antigo coreto, que abrigava as festas do bairro. No festejo do centenário do bairro, comemorado no dia 1º de maio de 2013, tal ausência foi especialmente sentida, na Praça XV de Novembro.



Assim, dez anos após a demolição do coreto original, ele foi reconstruído e inaugurado no dia 15 de novembro de 2013, numa demonstração de valorização do patrimônio do bairro para os moradores da região.


 


A construção veja o video: http://youtu.be/sTa8Ra-kbOQ


domingo, 16 de fevereiro de 2014

Siqueira Campos e o Monumento ao Levante do Forte em Copacabana



Esta história se iniciou com a descoberta de algumas fotos antigas do Monumento aos Dezoito do Forte nos arquivos da Prefeitura do Rio de Janeiro, datadas de 17 de setembro de 1959.


As fotos sugerem a retirada da estátua de Siqueira Campos da Praça Eugênio Franco, em Copacabana, sendo que a obra estava sobre o Marco ao Levante do Forte.





 






Na pesquisa, eu verifiquei que o busto em homenagem a Siqueira Campos – obra de H. Bertazzoni – tinha sido inaugurado em 16 de julho 1937. Ele foi instalado inicialmente na Avenida Atlântica, em frente a um cassino, e atualmente está na Praça Eugênio Franco, na entrada do Forte de Copacabana.


Contudo, matéria publicada na revista Veja de 10 de julho de 1974 traz o seguinte relato:


“Em 1932, o Major-aviador Carlos Saldanha da Gama Chevalier e o jornalista Rodolfo Dantas imaginaram uma festiva subscrição popular para custear o monumento. Chevalier, um participante secundário do levante do forte, recorda: ‘Tudo se fez para arrecadar dinheiro, chás dançantes,  corridas de Jockey e uma excursão da Miss Brasil da época, Yolanda Pereira, levantando contribuições’.


Com 57 contos de réis arrecadados, foi possível encomendar o trabalho do escultor e, com a sobra, pagar a fundição. A estátua da Siqueira Campos ficou pronta, mas dividido em três partes, sem a solda final, foi deixado muito tempo no Forte de Copacabana, aguardando as providências municipais que o transformaram o monumento público.

Do Forte foi levado ao Arsenal de guerra, onde esteve sob ameaça de ser fundido. ‘Felizmente, ele escapou desse destino’, suspirou Chevalier, ‘mas desapareceu’. Tornou a surgir, há poucos meses, provisoriamente montado no 25º Batalhão de Pára-Quedistas, no distante Campo dos Afonsos dos subúrbios cariocas, graças a um telefonema anônimo para a redação de um jornal.

Recuperado, o monumento aos 18 do Forte foi finalmente erguido na praia de Copacabana. Exatamente como havia sido planejado quarenta anos antes, a não ser por uma pequena alteração: na placa comemorativa, foram trocados os nomes dos colaboradores originais pelos do Governador e do Secretário de Obras do Estado, e se homenageou também o vice-presidente da República, Adalberto Pereira dos Santos, convidado à cerimônia.”

Em outra matéria, publicada pelo jornal O Globo no dia 7 de julho de 1974, existe o seguinte relato: 

“Para perpetuar a memória dos que sucumbiram nos dias ‘05 de julho’ e como uma consagração a quantos neles tomaram parte, foi lançada a idéia de erguer-se um monumento, o qual, entretanto, ainda não foi concretizado, ‘(à época deste relato – 17/09/1944)’, senão em parte, com a ereção do grande marco comemorativo, existente na Praça Eugênio Franco, nas proximidades do Forte de Copacabana. Vitorioso o movimento revolucionário de 1930, houve quem sugerisse a idéia da construção de um monumento aos heróis de Copacabana, ou aos ‘Dezoito do Forte’, como ficou conhecido a revolta de ‘05 de julho de 1922’. Foi o principal animador dessa iniciativa, o Tenente Carlos Chevalier. As subscrições abertas apresentaram, imediatamente, parcelas apreciáveis. Foi encarregado de organizar o projeto e levar a termo a obra o escultor Jose Rangel. O Prefeito do Distrito Federal Sr. Pedro Ernesto prontificou-se a ceder o material necessário a construção do pedestal. As pedras foram trabalhadas no morro da Viúva e ali ficaram aguardando transporte para o local. Também à figura do soldado em bronze no Arsenal de guerra, ai permaneceu à espera de condução.

Em resumo o monumento não foi inaugurado. 

Em 1943, o Coronel Euclides Hermes da Fonseca e outros oficiais reviveram a idéia da homenagem inexplicavelmente abandonada, e procuraram o prefeito desta capital a quem expuseram os propósitos de concluir a tarefa iniciada. Entretanto, a vista da impossibilidade da construção do monumento com a brevidade que seria de desejar, o prefeito sugeriu – e a sugestão foi aceita – que se levantasse um marco comemorativo dos dois ‘05 de Julho’ na praça Fronteira ao Forte de Copacabana, até que fosse efetivada a construção do grandioso monumento que deverá recordar os dois fatos históricos em homenagem aos que tomaram parte nos dois movimentos revolucionários desta capital e de São Paulo. É esse o grande marco que se ergue no centro da praça Eugenio Franco.”

Com base nestas informações, eu formulei a hipótese de que a estátua de Siqueira Campos foi executada no inicio dos anos 1930, mas o monumento ao Levante aos Dezoito do Forte, idealizado por José Rangel, não foi construído.  Com uma estátua inacabada, ergue-se em 1937 o busto em sua homenagem.




Provavelmente com a transferência do busto para a praça, ficou evidente  a dupla homenagem, isto é, uma: a estátua e o busto.

As fotos iniciais são da retirada da estátua em 1959. As matérias da imprensa confirmam que ela esteve sumida até 1974, quando foi descoberta no 25º Batalhão de Pára-Quedistas, no  Campo dos Afonsos. 

Esta carta do brigadeiro Eduardo Gomes ao secretario de Obras confirma a solicitação da estátua na Avenida Atlântica:  

“Exmo. Sr. Dr. Emílio Ibrahim


M..D. Secretário de Estado

Só agora, por motivo de saúde, posso agradecer a V. Exa. a carta que me dirigiu a 24 de outubro p.p, a propósito do monumento que se pretende erigir em memória do ‘heroísmo e bravura dos combatentes que não se renderam’ a 5 de julho de 1922.

Muito me sensibilizaram quer as expressões daquela missiva, quer a intenção do Governo do Estado, do qual V. Exa. é autorizado intérprete, de localizar o referido monumento, tanto quanto possível, no mesmo local em que tombaram os bravos na missão do holocausto.

Em resposta à consulta de V. Exa. nesse particular, incumbe-me confirmar que o exato local é o mencionado pelo historiador Glauco Carneiro no trecho que V. Exa. teve o cuidado de trasladar da obra ‘O Revolucionário Siqueira Campos’, de autoria do mesmo escritor.

Peço a V. Exa. se digne de transmitir ao Exmo. Sr. Governador Antônio de Pádua Chagas Freitas a reiteração de meu sincero reconhecimento pela honrosa iniciativa de seu Governo.

Peço-lhe ainda aceitar com iguais agradecimentos, a segurança de apreço e estima pessoal, com que me subscrevo. De V. Exa. Patrício e admirador obrigado Brig. Eduardo Gomes.

Rio, 6 de dezembro de 1973”

Uma das placas do Monumento a Siqueira Campos, situado na Avenida Atlântica, esquina com a Rua Siqueira Campos, confirma a solicitação do brigadeiro Eduardo Gomes e a instalação da obra. O texto da placa diz: “Monumento aos Dezoito do Forte de Copacabana, inaugurado a 05 de julho de 1974 com a presença do Vice-Presidente da República do Exército Adalberto Ferreira dos Santos e representando o Presidente da República General de Exército Ernesto Geisel e do Governador Chagas Freitas e do Brigadeiro Eduardo Gomes.”


A relação deste monumento com o existente na Praça Eugênio Franco é evidenciada na placa de bronze em baixo-relevo fixada na lateral do pedestal. Em ambos os monumentos está fixada a mesma cena dos militares caminhando pela Avenida Atlântica.